domingo, fevereiro 02, 2014

Ao sabor dos dias cinzas

Hoje eu queria o seu céu
Cinza, triste e com leves pontos brancos
Queria a dormência das suas bochechas ao bater da brisa fria no meio da tarde
Queria o vapor que sai da sua boca quando expira cansaço
Queria a dor nas pontas dos dedos
O rubor dos lábios
A secura da pele

Hoje eu queria o seu dia cinza
Hoje.

Amanhã?
Quero meus dias de sol.

quinta-feira, maio 02, 2013

Chuva


Primeiro, o cheiro
Segundo, o toque

Terceiro, o som
Quarto, memória

Quinto, confusão
Sexto,  calefação

Sétimo, céu
Oitavo, dissipação

Nono, desenlace
Décimo, evaporação

terça-feira, março 12, 2013

Diálogo

As palavras quando bem colocadas conquistam. Isto ela sabia muito bem. Sentia-se mestre nas frases de efeito originais e nas saídas estratégicas, respostas para situações de risco e momentos diplomáticos evasivos. A organização das palavras de forma atraente e intrigante era um dos seus desafios favoritos. Este ato, que podia levar dias, era o que a levava correr riscos e lhe dava a sensação de duelo seguro. Até aquela tarde de domingo, que como todas as tardes de domingo trouxe a despretensão e a despreocupação de sermos quem somos sem medir esforços de projeção de imagem.

A traição das palavras começa pelo dia da semana. Ela respondeu a mensagem antes despretensiosa, sem analisar o contexto, entregando-se ao deleite da coloquialidade expressa na sua blusa de flanela, cabelos desgrenhados, hálito de café e cama desarrumada de final de semana. Não levou as armas da retórica consigo. Apenas respondeu. Falou da semana, do dia, da hora, das vontades. Não mediu palavras, nem revisou acentos, encheu de reticências o pequeno texto, sinalizando seus suspiros e paradas não programadas entre um gole e outro. Entregou-se.

Assim, nem percebeu que na resposta da segunda-feira o opositor já possuía seus pontos fracos e imaginava seus pontos fortes. O seu interlocutor já a lia, assim como leu e dissecou todas as suas palavras. Ele era um jogador tão hábil quanto ela e com uma vantagem esmagadora. E ele ganhou o primeiro duelo, a segunda batalha. Empataram a terceira. Na quarta, ela já se sentiu mais segura. Na quinta, ele decidiu recuar, deixando a decisão para a sexta, surpreendendo-se mais uma vez e levando a discussão para o sábado. Então, como em um movimento extremamente calculado, ele desarmou-se e falou sem amarras, deleitando-se na sua coloquialidade de final de semana de quem passeia às 10 da manhã e para em um café, pedindo um pingado e um croissant, com chinelos nos pés, substituindo a sisudez da gravata diária.

Ela, então, o conquistou. Mas ficou tão perplexa com o movimento não previsto que decidiu não finalizar o adversário. Esqueceu-se do domingo. E apenas abriu a guarda para que mais palavras a envolvessem e pudesse montar um contra-ataque fulminante. O contra-ataque não fluiu. As palavras tornaram-se música. E a cada nova linha lida, cada questionamento atrevido ou afirmação blasé, uma nova melodia era iniciada. E tudo se concatenava. E cores brilhavam das crases, das siglas, dos pequenos erros, envolvendo-os num arco-íris de sensações que apenas aqueles que conversam sem amarras compreendem. E tudo era dito, nada esquecido de se compartilhar. 

Mas as palavras traem e o fazem durante os dias da semana. Uma pergunta bem colocada, uma afirmação vazia, um desencontro de informações revelam mais que um emissor pode desejar. Assim, sem a preocupação da construção do discurso, das amarras das regras do jogo, ambos misturaram todas as cores e transformaram a linda sinfonia em um barulho ensurdecedor. Acabaram-se os parágrafos. Não sobrou nem uma linha. Assim, fez-se o silêncio.

terça-feira, fevereiro 19, 2013

A névoa


"Preste bem, meu bem"
Lábios
"Nem tudo é mentira"
Fumaça
"Nem tudo é verdade"
Saliva

"A vida não é única"
Fuligem
"A vida passa"
Zunido
"E termina"
Bebida

Língua
"Não há se"
Lágrima
"Há apenas escolhas"
Olhos
"De ir e vir"
Partida

segunda-feira, setembro 03, 2012

Sinais


Não corra o risco
Desvie o olhar
O aviso está claro
As placas sinalizam o oposto
Não

Não corra o risco
Siga em frente
Delicie-se com o olhar
Mas as placas sinalizam o oposto
Sim

Corra o risco
Aumente a velocidade nas curvas
Deixe o vento bagunçar os cabelos
As placas? Elas não existem mais
Talvez

Risco
Conte até dez
Olhe bem o caminho a escolher
Analise as placas
Decida-se

Respire
Sinta as batidas
Diga Não
Diga Sim
Permita-se ao talvez
Mas não deixe de decidir

Que caminho seguir?
Só você pode decidir

Olhe as placas
Elas sinalizam o oposto
Elas não existem mais

segunda-feira, março 26, 2012

Passado

Pensei na dor que resulta no vômito
No gosto amargo da bile em minha boca
No grito preso dentro do peito
Nas palavras engolidas
Nos olhares vazios
No toque de passado
No calor resfriado

Pensei na dor constante
Esquecida
Senti saudades dela
como da droga
Aquela que tomava diariamente
Em doses proibitivas
Diariamente

Pensei na solidão
Nos dias de silêncio
Nas lágrimas secas
No único
Indivisível
No eu.

E senti saudades da dor constante
No toque passado
No calor, antes não resfriado
E da dor
Que sempre resultava em vômito
Deixando apenas o gosto amargo
Na boca
E na vida.

terça-feira, novembro 08, 2011

Sem Teto

Nem estou cá
Nem estou lá
Moro no meio

Das minhas alegrias, angústias
Tristezas
No meio da minha sacola
Cheia 
De desejos e decepções

Sem lugar para me afixar
Não deposito sentimentos
Carrego-os
De lá
Para cá

Apenas aguardo o momento certo
De me encostar
E descansar
Das minhas idas e vindas

segunda-feira, agosto 15, 2011

Contas

E no fim das contas
Há muitas contas a pagar
Arestas a podar
Dores a cessar

No fim das contas
Há o pensamento infinito
A dor dilacerante
O passado doentio

No fim das contas
Há você
Há eu
Há nós

No fim das contas
Há muito mais que contas
Que arestas
Que dores

No fim das contas
Nada há
Nem o fim.

quinta-feira, junho 16, 2011

C'est fini


Quando não há mais brasa
Só cinzas restam
E nem o álcool consegue refazer a chama
Sim, o fim chegou

Quando o ar é pesado
As partículas turvas cansam os pulmões
E o cheiro é indistinguível
É o fim

Quando o paladar é apenas insosso
O doce é salgado, o salgado é doce
E comer se torna uma obrigação e não mais um prazer
Sim, o fim chegou

Quando o olhar é vazio
O outro é apenas o vago e não mais o norte
E os olhos buscam outra direção
É o fim

Quando é o fim de nós
É o fim de ti
E é o fim de mim
Sim, o fim chegou.


quarta-feira, novembro 17, 2010

Nas nuvens

Na verdade, a culpa não é sua. Eu é que estava nas nuvens e não via com clareza o que se passava.
A distância fazia com que tudo se misturasse, como em pinceladas desconexas de um quadro impressionista vistas bem de perto.Eu não enxergava porque preferia as novas cores, o novo ponto de vista. O cheiro e o sabor dançando num jogo de esconde-esconde.

Vê. A culpa não é sua.

Na verdade, é que enquanto nas nuvens estava não me importava com as rajadas de vento, nem com as tempestades repentinas. Visto que a queda era amortecida por elas, as nuvens.Não me importava em gritar por gritar, em chorar por chorar, ceder e nada receber, por cobrar enfurecidamente. Por perder a lógica, a razão e a hora de viver. Porque das nuvens, bem, da nuvens eu não via com clareza o que se passava.

Precisou que tu vieste até a mim para lembrar-me: "Isto não é nuvem, é terra. cheira, toca. Vê como ela vira lama com tuas lágrimas. Isto não é nuvem. É chão". E no chão a distância é menor. As cores são sólidas. Cheiro é cheiro, sabor é sabor. Gritos incomodam e são abafados, a fúria é comedida, a razão comanda e as horas passam cruelmente. Ah! E sim, se caí. E a queda dói.
E as rajadas de vento espalham destroços e as tempestades inundam e corroem por onde passam.

Vê. A culpa não é sua.

A culpa é só minha que confundi céu e terra, areia e nuvem, tentando não ver.

sexta-feira, agosto 27, 2010

Caio Fernando Abreu

"Eu quis tanto ser a tua paz, quis tanto que você fosse o meu encontro. Quis tanto dar, tanto receber. Quis precisar, sem exigências. E sem solicitações, aceitar o que me era dado. Sem ir além, compreende? Não queria pedir mais do que você tinha, assim como eu não daria mais do que dispunha, por limitação humana. Mas o que tinha, era seu. "

segunda-feira, agosto 23, 2010

Implosão

A poeira ainda paira sobre o ar

O cinza, o cheiro de passado

Restos de tijolos

Arremedos de arame

Tocos de madeira

E o cheiro ocre dos esgotos arrebentados



Tudo aconteceu há pouco

Como um estalo

Num estampido

Na velocidade da luz

Em vários lances

Que mais pareceram um único



O alicerce, as vigas, os andares

Que me davam vida se foram.



E com eles foram-se também as memórias,

A coragem,

As tristezas e alegrias,

O poder do diálogo,

Os amores e o ódio,

A vida.

A vontade de reconstrução.

Ficou, apenas, o cheiro ocre dos esgotos,

A poeira pelo ar,

E o cheiro de passado.

sexta-feira, maio 14, 2010

Ensinamento - Adélia Prado

Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
"Coitado, até essa hora no trabalho pesado".
Arrumou pão e café, deixou o tacho com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.

Vi no Blog da Rosely Sayão.

sábado, maio 08, 2010

Frases

What's the most important thing life has taught you?

Fear nothing - failing that, fake it.

quarta-feira, abril 28, 2010

A bala

Toda falta que senti de você durante todos os dias, horas, minutos, segundos, em que ficamos separados explodiram agora em forma de estilhaços de bala. Meu coração cortado em pequenas partículas flutua entre todos os meus órgãos.

Uma dor constante, fina e cruel se instalou no meu peito. O meu ventre sente um incomodo. Meu estomago mareado cria gosto e hálitos de vômito em minha boca - acredito que essa seja o estado da minha alma. A minha pele traz calafrios, pequenas dores pelas juntas do meu corpo.

A inércia está no meu cérebro.

O único pensamento que possuo é "Volta para mim". Como um mantra ele vem e volta em tons graves, muitas vezes intercalados por um "Me aceita de volta".

Sinto o artefato explodindo novamente em mim.

Cada explosão dessas é um suplício. Respirar, então, é uma tarefa árdua. E sinto a dor fina e cruel, o ventre, o vômito, as juntas, os calafrios. E o mantra chega e olho para o lado, para cima, para baixo. Procuro a cura, uma solução para sintomas múltiplos de uma doença não catalogada.

Fecho os olhos. Vejo seus olhos firmes e dóceis, a linha do seu nariz, sua boca carnuda, grosseiramente talhada. Sinto sua respiração forte, a tensão em que você se mantém mesmo adormecido. Esses pensamentos apaziguam e reconstroem meu coração.

Até que a próxima bala penetra e me relembra a realidade.

Não conto os minutos, horas, dias em que passo nesse estado. Tenho medo que possa sentir a mesma saudade que senti por você durante dias, horas, minutos, segundos em que ficamos separados.

quinta-feira, março 04, 2010

Tá chegando a hora...

Amanhã é meu dia de aniversário - yey!
Enfim, essa é a música que representa o meu momento agora. Espero que gostem.



Ah! Parabéns Enoque e Evellyn! Nossos dias! =)

sábado, janeiro 02, 2010

Esperar

EU não espero mais
Notas de desgosto e orgulho tocam minha alma
Eu não espero mais

Por amor
Por brigas fadadas a cama
Eu não espero mais
Toques de telefone, mensagens
Para quê? Por quê?

Se não espero
Se não há ti
Eu não espero mais

Por mim
Por ligações fracassadas
Por apelos vãos
Eu não espero
Nem quero

Chegamos ao fim

terça-feira, outubro 20, 2009

Um pouco de Drummond

Quero

Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo.
Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo?
Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao não dizer: Eu te amo,
desmentes
apagas
teu amor por mim.
Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.
Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira a não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,
a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e na sua emissão,
amor
saltando da língua nacional,
amor
feito som
vibração espacial.
No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de amar-me,
que nunca me amastes antes.
Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor.

Fonte: Memoria Viva

Via @realwbonner

segunda-feira, outubro 19, 2009

domingo, outubro 18, 2009

Imprevistos

Ele disse que não poderia sair. "Imprevistos, querida, depois nos falamos". Como qualquer mulher, me senti a última da fila em uma daquelas festas de blind dates que agências para solteiros desesperados promovem. "Como assim? Imprevistos?", pensei. E nem uma explicação a mais, nem uma vírgula, ponto parágrafo no diálogo. Morri por cinco segundos.

Depois da pequena sessão vou cortar os pulsos, refleti que nos conhecemos  há apenas duas semanas. E que por mais que eu já tivesse feito planos para a nossa lua-de-mel em Bora Bora, são apenas 14 dias. Afinal, um fora seco, sem criatividade e por telefone na noite de sábado é bem mais interessante que um zigue no domingo, a base de desculpa esfarrapada tipo minha mãe precisa de mim. Afinal, sou jovem, com uma carreira promissora, bonita, e é sábado. 

Alto estima em cima - meu eu interior se sente em uma montanha-russa - e agenda do lado, vou a luta. Percebo que minha agenda está lotada de nomes masculinos. Detalhe: são todos gays. E por mais que ame a companhia deles, hoje, preciso sair para lugares heteros, ou pelo menos que não possuam rótulos, para me sentir um pouco menos rejeitada. A única amiga que conheço solteira, sem filhos e com a possibilidade de saída está em depressão - Ah! L'amour - e só de pensar em convence-la e explicar o meu fracasso em mais um dos relacionamentos relâmpagos, caio em desespero.
Sair sozinha? Não estou tão preparada. Fora que meu horoscopo me alerta sobre possíveis acidentes de carro.

Caminho até a geladeira, pensando na possibilidade de um vinho, por acaso, ainda estar por lá. Não, ele não se encontra. Paquero com o sorvete de flocos. "Uma colherada não mata", afirmo veementemente para as paredes. Gula. Alívio de sensações de fracasso.

Sento-me ao laptop, com o pote devidamente próximo, procurando não olhar as horas, e começo a assistir 500 days with Summer. "Espero que ele morra. Tome um porre, durma na praça, com cachorro lambendo. Seja assaltado. Se apaixone pela maior piriguete do planeta e leve chifradas homéricas". Choro ao final clichê "Hi! My name is Autumn", procurando, pela milésima oitava vez, em minhas caixas de entrada por mensagens dele dizendo que sente saudades ou que precisa de mim, nem que seja para trocar o pneu furado.